
Numa rua onde todos se conheciam e as casas tinham jardins bem cuidados, com árvores e flores embelezando a paisagem, encontrava-se Laura, com o corpo sobre um banco velho da rua. Deixava suas pernas para fora dele, o que indicava certo nervosismo e medo do desconhecido e vasto mundo ao seu redor. O clima local estava agradável, num certo equilíbrio entre não muito quente e nem muito frio, mesmo assim, aquela moça batia os dentes entre si e encolhia-se como se estivesse querendo aquecer-se. Mas no fundo ela sabia que, aquela reação, era somente o medo se manifestando através dela.
Em sua mente, pensava estar se prestando a um papel ridículo, pois aquilo tudo era vergonhoso para ela. Sair de sua casa ao cair da noite, sem deixar nenhuma notícia após ouvir mais uma briga de seus pais, antes lhe parecera tão certo, mas agora lhe parece uma ideia extremamente infantil. Olhava ao redor e via aquelas casas tão belas, que em sua opinião indicam quanta felicidade poderia reinar para as pessoas que ali viviam. Em meio a esses devaneios, foi quando se lembrou que havia trazido consigo o seu fiel caderno de recordações. Não que isso fosse fazer todos os seus medos irem embora a um passe de mágica, mas poderia ser uma boa alternativa para começar a driblar o seu nervosismo. Resolveu ao menos tentar.
Com suas mãos ainda trêmulas, segurou a caneta com certa dificuldade e aos poucos foi conseguindo fazer com que as primeiras letras saíssem no papel. Olhava para os lados, via e ouvia o vazio da rua em pleno início de madrugada. De dia, pensou ela, essa rua parecia tão agradável. Pouco a pouco, viu o papel que estava em suas mãos transformar-se em várias linhas escritas, em várias frases inventadas por ela mesma, para esquecer um pouco de toda a sua tristeza.
E então, assim escrevendo e sentindo-se mais aliviada, conseguiu adormecer, ouvindo os grilos, o único som que aquela rua ouvia durante a noite. Logo cedo seu sono foi interrompido pelo o canto dos pássaros e a luz do sol nascendo. Seu relógio indicava seis horas da manhã e com certeza poderia ficar um pouco mais naquele banco, pois acreditava que ninguém seria louco de acordar a essa hora em um sábado. Sábado, se seus pais não tivessem brigado feio, esse era sempre o dia em que iam para a cozinha ajudar a sua mãe a cozinhar. Mas os anos passam e tudo vai ficando menos intenso, esses momentos passaram a ser raros, quase nunca mais acontecendo. Mal conseguia se lembrar da última vez que isso ocorreu.
Ao ver um pássaro voar tão perto de onde estava, lembrou-se de seu caderno e leu atentamente as frases que escreveu. Encantou-se de primeira reação, entretanto após ler melhor caiu em si e pensou que aquelas palavras nada poderiam mudar em sua vida. Ainda era cedo e Laura sentia-se cansada, o que fez com que involuntariamente ela adormecesse novamente naquele banco desconfortável, sem importar-se se algum morador daquela rua chegaria e a veria ali.
Algum tempo depois, adormeceu profundamente e sonhou. Um sonho muito belo e cheio de detalhes, de cores vibrantes, mas de ao mesmo tempo uma sensação de paz e tranquilidade. Desejou ficar para sempre naquele sonho, onde tudo era tão calmo e tão aconchegante, onde tudo era tão diferente do que a sua vida tinha se tornado. Naquele sonho, encontrou um rapaz. Um moço muito bonito, por sinal, pensou, ainda sonhando. Mas além de belo, aquele moço parecia muito sábio. Parecia ser alguém que aprendera com a dor, mesmo que de forma tão precoce. Ele parecia dizer algumas coisas das quais não conseguia ouvir e isso a fez cair em choro manso, por não conseguir comunicar-se com a única pessoa que apareceu para ajudá-la.
Mas Laura estava enganada, o rapaz que tanto tinha despertado algo dentro dela podia ouvi-la e vê-la muito bem. Pegou o caderno das mãos dela e leu todas as palavras que estavam escritas em a sua frente. Encantou-se de certa forma e sorriu, sorriu e abraçou-a, fazendo com que naquele abraço Laura tivesse a certeza que tudo ficaria bem. De alguma forma, mesmo que não ouvisse a voz daquele rapaz, podia entender muito bem o que ele queria lhe dizer. Todas aquelas frases confusas que havia escrito eram muito importantes e poderiam ajudá-la sim. Ela poderia melhorar através das palavras. E ela ia.
Ao acordar via-se nos braços de um garoto. Ele lhe parecia tão familiar, porém não conseguia se lembrar de onde ela poderia já ter visto aquele rosto tão belo. Boa parte da manhã já havia se passado e várias pessoas já tinham passado por aquele banco, mas somente aquele jovem resolveu dar o apoio que mesmo não falando, conseguiu perceber que Laura precisava. Foi aí que ele a abraçou e quando nesse gesto fez com que a acordasse, pode presenciar o tímido e lindo sorriso estampado nos lábios daquela moça.
Aquele moço-bonito era Carlos. Ele morava numa rua onde todos se conheciam e as casas tinham jardins bem cuidados, com árvores e flores embelezando a paisagem. Era um garoto alto e com cabelos claros, com uma pele que poderia quase ser considerada cor de leite, de tão branca que era. Seu cabelo às vezes o incomodava quando caia no olho, mas até que ele achava isso divertido, porque irritava a sua mãe. Vê-la irritada era algo que o fazia rir, porque ela franzia a testa de um jeito sem igual.
Todo o dia antes de ir para a faculdade ele tocava algumas músicas na guitarra que ganhou do pai. Seu pai morava em outro estado, o casamento dele com sua mãe não foi muito bem sucedido. Em meio a isso, Carlos sempre ficou meio inseguro no que se dizia respeito ao amor. Ele não entendia como as pessoas podiam falar em amor eterno se o amor de seus pais não durou nem cinco anos.
Mas hoje, o dia em que conheceu aquela garota, ele não estava indo para a faculdade. Queria era mesmo sentir o ar puro daquela linda manhã de sábado quando foi até o jardim e avistou aquela garota deitada em um banco próximo a sua casa. De início Laura sentiu-se intimidada, mas aos poucos o silêncio desconfortável foi dando espaço a uma conversa agradável e muito divertida, em que os dois compartilhavam sorrisos e olhares de tristezas. Ambos estavam expondo a um alguém que nem conheciam direito seus medos e suas alegrias. Laura ficou sabendo da história dos pais de Carlos e então conseguiu entender que nem todas as casas daquela bela rua irradiavam felicidade. Talvez tanta beleza escondesse tristeza também. Carlos por sua vez, ficou sabendo da história dos pais de Laura e não sabia como consolá-la. Os dois tinham a mesma opinião e a mesma indignação sobre os relacionamentos. Os filmes e as histórias de romance os ensinavam que tudo terminava com um final feliz e que todos viviam felizes para sempre. Mas eles sabiam que não era isso o que acontecia. Ao menos não na vida deles. Eles sabiam, eles sentiram na pele o além do final feliz. Os filmes expressam o que muitas pessoas não alcançam na vida real e querem ver para iludir-se, pensou Laura.
Carlos comprometeu-se a levá-la para a casa e caminharam continuando aquela conversa, compartilhando opiniões parecidas e diferentes, compartilhando risos e olhares tristes. Compartilhando coisas e aprendendo ainda mais, em uma manhã que para ambos estava sendo extremamente especial.
Não se sabe o que o destino reserva para aquelas duas vidas. Ninguém sabe se viveram um belo romance ou se serão apenas bons amigos. Ninguém consegue prever o que acontece após o final feliz, porque para isso se é preciso viver. O amor é muito mais que o viveram felizes para sempre. O amor também tem as discussões e coisas ruins. Isso pode ser como um tapa na cara de muita gente, mas o amor também é isso. E os dois sabem que se algum relacionamento não dá certo, é preciso seguir em frente. Como eles seguiram e seguem, mesmo sabendo que o relacionamento das pessoas que mais amam fracassou.
E assim, Laura e Carlos sumiam na paisagem daquela rua cercada por jardins bem cuidados, com flores e árvores embelezando a paisagem.
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É necessário permitir-se, permitir-se viver, apaixonar, ser. É necessário, absolutamente indispensável.
E as vezes da vontade de sair por aí e sumir em ruas dessas, cercada por jardins bem cuidados e embelezando a paisagem. À dois e a sós. Sem saber o que reserva. E o texto é de se encerrar os olhos e imaginar como se pintasse o papel toda essa cena. Toda essa história linda, que desenvolve imaginar e lembrar das vezes que temos vontade de sair por aí, à dois e a sós...
Thaís, nem preciso dizer que amei né? Sua sensibilidade que me lembra bem boas leituras. Me identifico com seu blog. Maravilhoso estar aqui e compartilhar ternura e doçura. E você é adorável em suas palavras! Continue, vejo que as palavras te move. Beijo, Ana.
O velho ditado de não julgar o livro pela capa nos prova que casas bonitas, jardins bem cuidados e meras aparências não significam nada. Tantas vezes ficamos imersos nos nossos próprios problemas que acabamos esquecendo os outros tem vários problemas também.
Amei o seu texto, Thaís. Belas palavras, como sempre.
p.s: e você já irá encontrar algo novo no meu blog.
Ameei tudo aqui no seu blog; ele é super lindo, e eu gostei muito dos seus textos...'
Olha lá meu novo blog.:
just-a-girl21.blogspot.com
Beijos
Thaís,
Não é a primeira vez que leio um texto seu, mas é como se fosse. Sinto como se as palavras fluíssem dos seus dedos com a mesma facilidade que elas têm de projetar um pequeno filme na mente de cada uma das suas leitoras. Continue escrevendo assim e cada vez mais você irá se deparar com ruas, casas e pessoas que irradiam felicidade.
Beijos da sua mais-nova-não-tão-velha-leitora,
Marina
Querida Thaís, é como a Ana falou: as vezes, dá vontade de sair por aí procurando uma rua bela, onde possa encontrar uma pessoa bela que, acima de tudo, te entenda e esteja ao seu lado, se preocupando, te aconselhando e tentando ser uma mão amiga. Hoje em dia, TODA e QUALQUER forma de relacionamento, em 97% dos casos é tudo muito comprado. As pessoas se esquecem demais do que realmente tem valor para elas e acabam trocando valores, significados. O que não era para ser importante acaba tomando o lugar de uma coisa extremamente necessária e que está esquecida.
Na maioria das vezes, Lauras e Carlos estão nas pessoas que menos imaginamos. Laura, uma pessoa ingênua porém madura, com uma maneira de ver as coisas maravilhosa. Acaba transparecendo um sentimento afetuoso por seus pais, mesmo que longe. Carlos, um pouco mais desenibido acaba demonstrando o tipo de menino que TODA menina deseja, ou seja, bonito dos dois jeitos. É um cara que acima de tudo é amigo e isso, diga-se de passagem, é o mais importante.
Particulamente, defendo que o texto deixou uma mensagem muito linda e que, quando lapidada, pode ser uma espécie de ajuda àquelas pessoas que pensam que algumas coisas não possuem mais sentido. Como sempre Thaís, a sua forma de persuadir as pessoas é maginífica e eu tenho muito orgulho de ter alguém como você na minha vida. Espero que não saia tão cedo. Carinhosamente, Pedro
Adorável Taís. Creio que não há um post seu da qual eu não tenha lido tantas vezes quanto esse. A riqueza de detalhes, tão bem expressado. Acho que não preciso dizer que é um dos meus posts preferido. Me identifiquei com Laura, e eu gosto disso. :3 Sempre fico emocionada com a maneira que você escreve, parabéns querida.
Beijos e um enorme abraço. @lovlovemedo
Essa sua história tem um ensinamento tão bonito. Pois é assim, compartilhando das mesmas tristezas, que se vem a alegria. É preciso saber conviver com as tristezas, saber driblá-las e saber espantá-las. Ninguém pode viver assim para sempre.
Belíssima história, Thaís. Eu li tão encantada que nem notei o quão grande era. Ah, adorei o nome que você deu a personagem *------*
ah, e sobre sua pergunta, aquela é minha história sim. ^^
grande beijo :**
Seu Blog me encanta cada dia mais, e seus textos são maravilhosos. Você descreve tão bem cada detalhe, que é possível imaginar nitidamente o desenrolar da história. Lhe admiro muito linda, beijos. @eusintomuito
Que lindo, Deus! Chega meu coração está emocionado com a pureza das suas palavras e o recebimento da sua mensagem. Como agradecer? Senti a paisagem.
Querida, não deixe de cuidar do seu jardim, ele é tão florido e colorido. Deus te ilumine sempre*
Tão simples e tão cheio de significado...
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