quarta-feira, 15 de junho de 2011

Entre os acordes da vida.



Era mais uma daquelas tardes nubladas e chuvosas, onde a maioria das pessoas sai com a cara emburrada para ir ao trabalho ou ao colégio, porque preferiam estar em casa debaixo de suas cobertas. Além de estar um dia chuvoso, o frio também predominava nos últimos dias. Em meio a isso, numa casa onde havia um imenso jardim cercado por flores, morava um moço que encontrava nos dias calmos e cinzas a inspiração para compor algumas canções.

Era um rapaz apaixonado pela música. Assim como era pela leitura, apesar dessa paixão ser um pouco recente, ao contrário da música, que veio desde pequeno quando via o pai tocar violão. Achava magnífico o modo como aquele instrumento tão simples podia reproduzir um som tão bonito. Seu pai o ensinou algumas coisas, mas foi por sua própria vontade que ele aprendeu a tocar aquele instrumento antes de completar dez anos.

Aos quatorze ganhou um violão de presente de aniversário, comprado numa loja e tudo. O vendedor garantiu que era um dos melhores e seu tom marrom claro fez seus olhos brilharem ao o segurar pela primeira vez em seus braços. O garoto sentia-se incrivelmente tranquilo, com uma sensação de bem-estar tremenda quando começou a tocar ali mesmo na loja uma canção que seu o pai o ensinou. Todos os outros clientes presentes sorriam ao presenciar a cena.

Porém, um acontecimento imprevisível fez o brilho dos olhos de John sumirem ao ouvir uma notícia contada por seu próprio pai. De início o pai de John não queria estragar aquele momento tão feliz da vida do filho, mas sabia que poupá-lo da verdade não seria o certo a fazer. Sabia que em algum momento teria que ser franco com o garoto. Não tinha por que adiar, mesmo que isso poupasse que lágrimas estragassem o aniversário de seu filho, essas lágrimas teriam que ser choradas em alguma hora. Aliás, o pai de John sempre teve esse pensamento, sempre pensou que é melhor ferir alguém com uma verdade do que iludir adiando o momento de ser franco, ou pior, contando-lhe uma mentira. E foi por esse motivo que o sorriso que havia nos lábios de John e o brilho nos olhos se desmancharam no exato momento em que ouviu de seu pai a trágica notícia. Sua mãe havia morrido atropelada ao sair para o trabalho. Os olhos de John se encheram de lágrimas e voltou para a casa em silêncio com o pai. Naquele dia, foi a primeira vez em que viu a música como um refúgio da realidade.

Agora, cinco anos depois, John ainda lembrava-se da mãe, das inúmeras vezes em que ela o chamava para o jantar ou ficava admirando seu modo de no violão tocar. Lembrava-se vagamente do último sorriso que deu, antes de John ir até àquela loja comprar seu primeiro instrumento. Mas ele seguiu e seguia em frente. Encontrava nas noites frias e nos dias cinza sua inspiração. Não que nos dias de céu azul ele não escrevesse ou tocasse, só se sentia melhor e mais calmo quando os dias eram nublados.

Além de ter se refugiado na música, John alegrava seu pai, agora mais velho e com alguns problemas de saúde ao contar algumas histórias. Sua mãe era a encarregada de contar histórias para os dois quando ele era pequeno, então pensou que repetir esse hábito faria com que ambos estivessem mais próximos dela. Ele se arrepende de só ter tomado gosto pelos livros após acontecer uma tragédia com sua mãe, pois ela sempre quis tentar fazer com que o garoto se interessasse em ir à biblioteca da casa com ela e ler alguns livros durante as tardes que passavam juntos. Agora, arrepende-se de ter perdido tal preciosa oportunidade. Quanta coisa John não teria aprendido com o mundo dos livros e com companhia de sua doce mãe!

Esse moço que guardava tantas alegrias e mágoas aproveitava o frio e a chuva que haviam chegado a sua cidade para compor algumas músicas. Na verdade, há tempos vinha intercalando entre a leitura para seu pai, seu trabalho e o tempo para compor canções. Ele tocava em alguns bares da cidade. Não por tornar-se conhecido dos frequentadores, nem pelo dinheiro, nada disso interessava a ele. Seu objetivo era somente alegrar a noite de algumas pessoas com o que escrevia e com as melodias que criava.

Seu sonho era, assim como através da leitura ajudava a vida do seu pai ser um pouco mais feliz, conseguir através da música animar a vida de os mais diferentes tipos de pessoas. De levar suas canções a pessoas comuns, que tinham problemas, alegrias, sonhos e desejos, assim como ele também tinha. De levar suas canções a pessoas totalmente diferentes dele, mas que traziam na bagagem uma vontade em comum: refugiar-se e encontrar abrigo na melodia de alguma canção.

Porque John sabia muito bem que nenhum ser humano é igual ao outro, assim como todos temos alegrias e tristezas nessa vida. No entanto, ele sabia também que quem permite refugiar-se na música acaba se tornando mais feliz.

18 pessoas deixaram uma lembrança.:

Natalia Campos disse...

Divinamente e-n-c-a-n-t-a-d-o-r. Eu adorei cada palavra, cada frase, cada parágrafo desta simples e doce história. Tão bem contada e tão interessante. Eu simplesmente adorei, minha querida Tiss. Sua inspiração é leve e doce ao mesmo tempo. Escreva sempre, pois eu sempre estarei aqui para prestigiá-la com o maior carinho. Beijos no seu coração, pequenina. Au revoir!

@03h33 disse...

Lindo do início ao fim. Toda a emoção transcritas através das palavras. Encantador!

A books lover. disse...

Amor, me emocionou dos pés à cabeça. Você construiu muito bem essa história. A senti tão real. Você cresce a cada dia mais, viu? E o mundo está cheio desses Johns que tentam transformar a dor em alegria e com isso ajudar o próximo. Um exemplo a ser seguido, acima de tudo. :)

Alessandra B. disse...

Que texto mais lindo. As palavras transcreveram nitidamente a imagem do que você escreveu, deu para imaginar a cena acontecendo dentro da minha mente. Simplesmente encantador, do começo ao fim (como já disseram anteriormente). Parabéns linda!

Eu vejo, aprendo e sou capaz! disse...

Ah, minha amiga, tu sabe o quanto admiro a forma que tu usa as palavras e exibe tuas idéias. Continue me fazendo querer ler os teus textos. Parabéns de novo querida. <3

Eu vejo, aprendo e sou capaz! disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lana disse...

Como todos disseram aqui, está encantador Tiss, você evolui cada dia mais, e eu me orgulho de acompanhar isso aqui desde o começo. Parabéns. *-*

Mariana. disse...

Sua escrita me encanta. Ao mesmo tempo em que é tão doce e terna, há uma densidade que não me arrisco a descrever. Parabéns pelo modo que você encaixou as palavras no texto. *-* Ficou lindo! <3

Ana Luiza Cabral disse...

Oi Thaís! Tô adorando seu cantinho, e amei mesmo a sensibilidade que você escreve, que você brinca com as palavras e encanta quem lê. Já me sinto íntima de seus textos! Seguindo seu blog. Voltarei sempre aqui. Beijos!

http://analuizacabrall.blogspot.com

Maxx disse...

Muito bom seu blog. Como seu mais recente seguidor, estarei sempre por aqui. Abraço. Maxx.

http://telecinebrasil.blogspot.com

Jess Veiga disse...

Pra mim é até meio mágico ler o que escreve, sabia? Faz a minha mente trabalhar tão bem, imaginando cada detalhe da cena. E repito o que muitos disseram aqui: encantador.

Ive Kaveski disse...

Obrigada pela visita, flor. E também pelo elogio. =)

Nesses últimos dias, sou eu quem não anda entrando muito por aqui. Não tenho mais tempo para ler os blogs que acompanho e isso me faz muita falta. De qualquer forma, li alguns de seus textos há um tempo atrás e também gostei muito. Você tem uma ótima relação com as palavras, Tiss. =)

Beijo beijo!

Manie disse...

que texto lindo çç
poderia virar um livro!

Pedro Menuchelli disse...

Thais,
Em primeiro caso, queria deixar claro que fiquei muito feliz e me senti muito lisonjeado com seu comentário e suas lindas palavras deixadas em meu espaço. Pode ter certeza que mesmo sendo a primeira vez que esteve por lá, suas expressões me tocaram de uma forma encantadora, capaz de sentir a sua energia através da escrita.

E quanto ao seu texto, sem palavras, de verdade. A forma que você escreve acaba cativando demais o leitor a fazer parte da história. Suas palavras são como chaves de um tesouro riquíssimo em conhecimento. Tudo na nossa vida é conhecimento, tudo é aprendizado. E você não imagina o quão maravilhoso é saber que posso compartilhar meu pensamento com uma pessoa tão integra e com caratér quanto você. Se não se importa, estou a te seguir.

Um grande beijo, uma ótima semana. Pode ter certeza que estarei aqui mais vezes.

Daniela Filipini disse...

O que eu poderia dizer, quatorze pessoas já disseram: lindo, do início ao fim. Melancólico e doce, do jeito que gosto.

Alinne Ferreira disse...

Te seguindo.

Minne disse...

Tiss, um encanto! É impressionante como cada um possui seu jeitinho único de se expressar, o teu é praticamente inconfundível, diria eu. Ao passso que leio, sinto como se eu tivesse que segurar as palavras para elas não caírem de tão frágeis que são, isso é você no texto, tua influência, tua maneira de mostrar o que quer, delicadeza seria a palavra certa pra encaixar nesse contexto.
Por mais que pareça medonho, a dor da perda nos inspira, se a dor é tamanha, ela incorpora tudo o que fazemos. Deixa de ser eu pra ser dor. Mas há quem consiga reverter a situação, como o John, que consegue proporcionar às pessoas que o rodeiam calma, tranquilidade e conforto com a dor que carrega. E o mais encantador disso tudo é que a felicidade dos outros o faz feliz. Lindo viu? Beijão.

Larissa Galasso disse...

Pra começar, seu texto é ótimo. Escreve muito bem, de verdade. Parabéns! Também vejo na música um refúgio, e confesso que quase chorei com o que escreveu.

Segundamente, amei ver um trecho de A menina que roubava livros por aqui! "Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito".